Um jovem craque espera, com a camisa 19 às costas, a chance de ser titular em sua primeira Copa do Mundo. A chance não vem, apesar do clamor popular, e a seleção é eliminada. Sem o jovem promissor em campo.
O roteiro acima é o da seleção argentina comandada por José Pekerman, no Mundial de 2006 — o camisa 19 era Lionel Messi, então com 20 anos. Mas o início da história guarda semelhança com outros personagens, duas décadas depois: Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, e Endrick, 19 anos, mais promissor atacante do país.
O treinador italiano — assim como Pekerman, há duas décadas — não tem dúvidas do talento de Endrick. Ele fala, em conversas privadas e aparições públicas, sobre as qualidades do prodígio que já comandou no Real Madrid. E que agora é aclamado como possível solução para o ataque brasileiro.
""Endrick é outra coisa. Um talento extraordinário. E paciente. E sua família é paciente também. Será muito importante para o Brasil nesta Copa e também na próxima", disse Ancelotti em entrevista coletiva na quinta-feira (18), véspera do duelo entre Brasil e Haiti, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo.
Apesar dos elogios, o treinador ainda não está convencido de que Endrick é a melhor opção para começar jogando. O camisa 19, porém, não é o último da fila, como pode ter parecido após sua ausência no segundo tempo do empate por 1 a 1 com Marrocos.
No duelo contra os africanos, Ancelotti viu-se pressionado para fazer duas substituições por cartões ainda no intervalo. Depois, tentou abrir o campo com Luiz Henrique, mas revelou a pessoas próximas que Endrick também era uma opção.
O 'caso Messi'
A estratégia de segurar um jovem talento em uma Copa não é inédita. Foi assim com Lionel Messi, na Copa de 2006. Naquele torneio, o camisa 19 da Argentina ficou fora da estreia contra a Costa do Marfim e só entrou em campo na segunda partida.
Messi estreou em um jogo já controlado. Ele entrou aos 29 do segundo tempo contra Sérvia e Montenegro, com a Argentina vencendo por 3 a 0, e participou do 6 a 0 com um gol no fim.
Na sequência, o então técnico José Pekerman voltou a colocar Messi em campo quando a classificação já estava encaminhada, mas voltou a restringi-lo no mata-mata. O atacante jogou 71 minutos no 0 a 0 com a Holanda e depois atuou só seis minutos contra o México.
Nas quartas de final, quando a Argentina caiu nos pênaltis diante da Alemanha, Messi assistiu do banco a 120 minutos de futebol. Pekerman até fez uma substituição no ataque, aos 33 minutos do segundo tempo: Julio Cruz, atacante de 1,90m da Internazionale, entrou no lugar de Hernán Crespo.
Endrick na seleção
A carreira de Endrick na seleção brasileira ainda é curta, mas tem momentos importantes, como os gols diante de Inglaterra e Espanha, em amistosos no início de 2024.
Era o início do trabalho de Dorival Júnior como treinador, o jovem, então com 17 anos, surgia como candidato a titular absoluto, capaz de balançar as redes em Wembley e no Santiago Bernabéu, sem sentir a pressão dos maiores palcos do futebol mundial.
Só que Endrick nunca se firmou como o titular incontestável que parecia estar destinado a ser. Na Copa América de 2024, perdeu espaço; depois, já no Real Madrid e sem oportunidades — então com Ancelotti como treinador do clube — saiu das convocações.
A chegada de Ancelotti à seleção, em maio de 2025, veio acompanhada de um conselho: Endrick precisava de tempo de jogo. Em dezembro, ele foi emprestado pelo Real Madrid ao Lyon, onde passou a ter mais oportunidades e brilhou: em 21 jogos, marcou 8 gols, deu 8 assistências e garantiu o retorno ao Real Madrid já para a próxima temporada, em agosto.
O assunto da vez
Em uma seleção com Vini Jr. e Neymar, é raro que outro jogador seja protagonista. Mas, desde que a delegação pisou em solo norte-americano, Endrick está na linha de frente.
As entrevistas coletivas, raro momento em que jogadores e imprensa têm contato, são um bom termômetro: além de Ancelotti, Raphinha, Danilo e Igor Thiago foram perguntados pelo jovem atacante.
No caso do atacante do Brentford, Endrick fez até pergunta. Ele foi, junto de Rayan, prestigiar a entrevista do colega. Acabou roubando a cena.
Um dos líderes do grupo de jogadores da seleção, Danilo foi perguntado sobre o colega, e revelou-se impressionado com o que vê nos treinos.
"Endrick é um jogador muito importante, é uma joia rara que a gente tem no futebol brasileiro. É um jogador que tem uma potência de perna muito grande, um poder de decisão muito grande, é um jogador que tem estrela. É um cara que pra gente, a gente quer ter ele perto" disse o defensor, que revelou ser também um conselheiro.
"Eu falo muito com ele, eu falo: 'Mantenha a cabeça fresca. A hora que você entrar, que seja cinco, seis, 10, 20 minutos, meu amigo, tu vai botar a bola pra dentro. E aí, é no seu nome, e nós tamo lá te apoiando, te ajudando, entendeu?'".
Fonte: Uol

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