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Helicóptero lança 4 toneladas de sementes para reflorestar Mata Atlântica no ES

Rio Novo do Sul

Helicóptero lança 4 toneladas de sementes para reflorestar Mata Atlântica no ES

Ação espalhou 2,6 milhões de sementes em 80 hectares em Rio Novo do Sul e busca recuperar a palmeira juçara, ameaçada de extinção

(Helicóptero lança 4 toneladas de sementes de juçara para reflorestar área de Mata AtlânticaTV Gazeta)

Cerca de quatro toneladas de sementes de palmeira-juçara (Euterpe edulis) foram lançadas de um helicóptero em uma operação inédita que busca recuperar e reflorestar a Mata Atlântica em uma área de difícil acesso em Rio Novo do Sul, no Sul do Espírito Santo.

Além da preservação ambiental, o objetivo é fortalecer a economia local, já que a espécie é usada para diferentes finalidades. Do fruto da juçara é possível extrair a polpa para fazer um suco 'estilo' açaí, bebidas, doces e pratos salgados.

As sementes usadas na operação nasceram na própria região e foram doadas por proprietários de três agroindústrias locais de polpa de juçara. A aeronave usada na ação foi do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer).

    A escolha por matrizes nativas aumenta as chances de adaptação e germinação das futuras mudas na floresta, um cuidado técnico que promete acelerar a regeneração natural nos próximos anos.

    Um dos personagens dessa história é o produtor de mudas Natalino Marquezini, que enxerga na operação o reforço de um trabalho que já realizava de forma artesanal. Ele explicou que a espécie exige atenção constante no manejo.

    "Ela é um pouco melindrosa e muito complicada. A juçara depende do tempo: se der muito sol, ela não germina; se tiver muita chuva ou muita água, ela vai apodrecer", comenta o produtor.

    Apesar dos desafios, Natalino confia na recuperação do ecossistema local: "Se todo mundo fizer a sua parte semeando, a gente vai conseguir. Eu acredito que vai melhorar 100%".

    Ameaça de extinção e o ciclo da 'mãe da floresta'

    Por trás do sobrevoo existe também uma corrida contra o tempo. A palmeira-juçara está classificada como vulnerável à extinção na lista oficial do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), principalmente devido ao histórico de extração ilegal de palmito.

    Diferentemente de espécies como a pupunha, a juçara possui caule único. Quando cortada para a retirada do palmito, a planta morre definitivamente e não volta a brotar, o que enquadra a prática como crime ambiental.

    Na natureza, a dispersão da espécie depende da fauna silvestre. Por alimentar dezenas de aves e mamíferos e ser indispensável para o equilíbrio do bioma, a árvore é apelidada por biólogos e ambientalistas de 'mãe da floresta' ou 'arroz e feijão da Mata Atlântica'.

    Com a planta praticamente ausente do trecho sobrevoado devido à degradação e ao desmate predatório do passado, o ciclo natural de regeneração estava interrompido.

    De acordo com engenheiros e técnicos do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a dispersão aérea com helicóptero vem justamente para acelerar o processo.

    A expectativa dos pesquisadores é que, em um período de 5 a 6 anos, a quantidade de árvores adultas tenha crescido consideravelmente na região, permitindo que os próprios animais voltem a espalhar as sementes sozinhos.

    (A palmeira-juçara está classificada como vulnerável à extinção na lista oficial do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), principalmente devido ao histórico de extração ilegal de palmitoTV Gazeta)

    Tecnologia e precisão no ar

    No ar, a operação seguiu um rigoroso protocolo técnico. O helicóptero sobrevoou uma área de aproximadamente 80 hectares de mata fechada e de terreno acidentado.

    "É uma área densa, de mata virgem, fechada, de aproximadamente 80 hectares. Escolhemos o local devido à inexistência da palmeira-juçara na floresta e pela proximidade", explicou o secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente de Rio Novo do Sul, Gustavo Lourencini.

    Um sistema de GPS orientou as faixas de voo para garantir a distribuição uniforme de aproximadamente 2,6 milhões de sementes sobre o terreno. A escolha pela via aérea permitiu cobrir a área sem a necessidade de abrir trilhas ou pisotear a vegetação nativa.

    Inspirada no Programa Pró-Juçara, da Fundação Florestal de São Paulo, a ação foi realizada pela prefeitura em parceria com o Incaper e o Notaer.

    Fruta movimenta o 'açaí capixaba'

    (A polpa do fruto, apelidada de 'açaí capixaba', virou a principal fonte de renda em Rio Novo do Sul, considerada a Capital Estadual da JuçaraTV Gazeta)

    Reconhecida por lei estadual como a Capital Estadual da Juçara, Rio Novo do Sul tem transformado a conservação da espécie em oportunidade de negócio. A polpa do fruto, apelidada de 'açaí capixaba', virou a principal fonte de renda para produtores de sorvetes, picolés e doces artesanais na região.

    A empresária Drielem Perim Menegardo destacou a relevância social da atividade no meio rural.

    "Hoje, a gente trabalha com mais de 60 pessoas no ramo da juçara. Ela não traz renda só para a minha família, mas para toda a comunidade de Rio Novo do Sul", comemora Drielem.

    O alcance do ingrediente ultrapassou os limites municipais. A polpa produzida na cidade ganhou espaço em cozinhas autorais e restaurantes dentro e fora do estado, tornando-se o atrativo principal da Rota da Juçara, circuito turístico e gastronômico que conecta Rio Novo do Sul a Vargem Alta.

    Conscientização nas escolas e legado para o futuro

    Crianças mostram sementes da juçaraTV Gazeta

    O impacto da preservação da juçara também ganhou as salas de aula da rede municipal. Para ensinar aos estudantes que a palmeira representa mais do que uma celebração festiva, a pedagoga Dolores Paixão ajudou a criar um projeto educativo focado no valor ambiental e econômico da espécie.

    "Para as crianças deixarem de ver a palmeira apenas como 'a festa da juçara', nós criamos um projeto que leva até elas a importância da geração de renda para o nosso município", explica a professora.

    A nova geração de estudantes vai acompanhar de perto os frutos do reflorestamento aéreo. O produtor Natalino Marquezini prevê resultados visíveis em médio prazo: "Daqui a cinco anos, o pessoal já vai ver cachos de juçara espalhados pela região".

    Para Drielem, o valor real da ação está na garantia de sustentabilidade para as próximas gerações.

    "Eu falava muito sobre isso: quando a gente vier a faltar, quem vai manter essa floresta viva? Hoje estamos vendo essa dispersão aérea, e isso é gigante. Não é só para mim. Daqui a 10 ou 15 anos, os meus filhos e os filhos de todos os produtores vão ter essa renda. A juçara não vai morrer, vai se manter viva", desabafa a empresária.

    Segundo a Prefeitura de Rio Novo do Sul, o voo integrou conservação ambiental, inovação tecnológica e agricultura familiar em uma única iniciativa.

    A gestão municipal espera que o projeto sirva de modelo para futuras ações de restauração ecológica por dispersão aérea em outros trechos degradados da Mata Atlântica capixaba.


    Com informações do g1 ES. 


    *Texto adaptado por Kamila Rossi, aluna do 29º Curso de Residência em Jornalismo. Este conteúdo teve orientação e edição de Vitor Ferri.

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